Escrever para o ouvido, não para o olho
Quem lê pode voltar uma linha. Quem ouve, não. O ouvinte está dirigindo, atendendo cliente ou empurrando carrinho no mercado. Sua frase toca uma vez e some. Essa diferença muda tudo na hora de escrever.
Texto feito para o olho aceita oração longa, aposto no meio, sigla, parêntese. O ouvido recusa. Ele processa em linha reta e desiste quando perde o fio. Por isso um texto bonito na tela pode virar um áudio confuso.
Uma ideia por frase
Quebre. Onde você colocaria vírgula e seguiria em frente, coloque ponto. Compare as duas versões da mesma informação:
- Para o olho: A Casa do Piso, que fica na Avenida Brasil, número 1200, está com condições especiais em porcelanato durante todo o mês de março.
- Para o ouvido: Porcelanato em oferta na Casa do Piso. Avenida Brasil, 1200. Só neste mês.
A segunda versão diz o mesmo, entra mais rápido e ainda sobra tempo para repetir a marca no fim. Sobrou tempo porque sobrou espaço: menos caracteres, menos segundos.
Mantenha sujeito perto do verbo e verbo perto do complemento. Quando você afasta esses três, o ouvinte precisa segurar a frase na memória até o final. Ele não vai segurar.
Ritmo se escreve com pontuação
O locutor respira onde você manda. Ponto é pausa longa. Vírgula é pausa curta. Dois-pontos anunciam o que vem. Reticências arrastam e quase sempre atrapalham em peça curta.
Quando o áudio sai de voz sintética, isso pesa ainda mais. A pontuação é praticamente a única direção de interpretação que o motor recebe. Um bloco de texto sem ponto vira leitura corrida, sem ar, e o ouvinte sente pressa mesmo quando a oferta é calma.
Três ajustes que resolvem a maior parte dos casos:
- Troque metade das vírgulas por pontos e ouça de novo.
- Coloque a palavra que precisa de ênfase no fim da frase, onde a entonação cai.
- Não escreva frase com mais de uma oração subordinada. Se tem que duas vezes, corte.
Leia em voz alta com o relógio na mão
O texto falado tem uma medida simples: o relógio. Trinta segundos cabem uma oferta, um motivo e o endereço. Quinze segundos cabem a oferta e o nome. Se a leitura passa disso, o texto não cabe.
Antes de mandar produzir, leia alto no seu ritmo normal, sem acelerar para caber. Se você tropeça, o ouvinte tropeça junto. Se falta ar no meio da frase, falta um ponto ali. Se você precisou correr para fechar no tempo, o problema não é o locutor: é o texto.
Três coisas que sempre pioram no ouvido e que valem revisar antes de gerar o áudio:
- Sigla não explicada. O ouvinte não sabe o que é e para de escutar para tentar adivinhar.
- Número com muitas casas. Preço quebrado e telefone completo comem tempo e não fixam.
- Nome estrangeiro sem indicação de pronúncia. Escreva como se fala, do jeito que você quer ouvir.
Uma última checagem ajuda muito: leia só a primeira e a última frase. Se essas duas sozinhas já entregam a marca e o que fazer, o texto está de pé. O miolo é reforço.
Escrever para áudio é escrever menos e escolher melhor. O tempo é fixo, o ouvido é impaciente e a segunda chance não existe. Quando o texto passar do tempo, não acelere a locução. Corte.